Sobre ensinar e sobre dança

agosto 18, 2018 1 comentário

Hoje eu estou muito mais envolvido com o mundo do ballet e com gestão em dança, do que especificamente com o mundo das danças de salão ou da Educação Física. Mas isso não quer dizer que parei de estudar isso. Eu nunca paro.

Pensei MUITO antes de escrever isso, se eu deveria ou não… por fim, vou arriscar um “textão”, pois já vi mais de um vídeo de mais de uma pessoa, falando coisas como “O trabalho do professor de dança não é dança, mas a transformação através da dança” ou que “Você não trabalha com ballet, mas com a imaginação, com o encantado, com a fantasia”; e hoje, em específico, achei MAIS um vídeo, dessa vez voltado para as danças em salão, e bateu um friozinho no estômago que normalmente não sinto quando se fala do ballet.

CONCORDO inteiramente com a necessidade de adquirir conhecimentos, diversos à técnica de dança, que são necessários ao trato com o aluno num aspecto mais humanizado. Tanto é assim, que  todos os treinamentos de métodos de dança clássica, e cursos técnicos, e licenciaturas, tem em sua estrutura curricular elementos voltados à psicologia, filosofia, etc. sempre ligados ao campo do ensino da dança.

É necessário que o professor de dança (não só de dança de salão, mas de qualquer dança, na verdade professor de qualquer coisa) tenha a noção de que os seus alunos não são “copos vazios” esperando você derramar seu conhecimento. Que eles vêm com uma bagagem educacional, emocional, social, psicológica, etc; que o professor tem a responsabilidade de estar trabalhando com vidas, de perceber indícios de problemas sociais, ou até psicológicos, e abordar esses indícios de forma profissional, de forma a amenizar possíveis entraves no aprendizado. E concordo que isso tem um impacto positivo na vida do aluno.

Não concordo, entretanto, com transferência do “cerne do labor”, ou seja, do foco do trabalho do professor de dança. Para mim, o professor de Dança trabalha com dança E com pessoas. Ele ensina pessoas a dançar. Ele não é psicólogo, sociólogo, terapeuta (pode até ser, em formação, mas não naquele momento). Ele é professor. Ele trabalha com o ato de ENSINAR um objeto de estudo em específico. O trabalho do professor NÃO É transformar vidas através da dança de salão. O Trabalho do professor (de qualquer coisa) é ENSINAR e, através deste ensinamento, dar condições para que o aluno se transforme, transforme a sua vida… através da dança, da pintura, do teatro, do tricô, da culinária, da física, da matemática, da literatura, da filosofia.

O trabalho do professor (de qualquer coisa) não é transformar ninguém, mas dar o PODER DE TRANSFORMAR-SE através do que se ensina.

NO ENTANTO… Se estamos falando de MARKETING, ou de propaganda, aí, sim, talvez eu concorde com a idéia de que o “professor de dança não trabalha com dança, e sim com gente”. Porque o cliente não está interessado no produto, mas sim no efeito, na reação, na transformação que o produto é capaz de provocar no cliente. E, nesse sentido, o professor inteligente não vai “vender” a técnica, o passo, o cambret, o pliè… ele vai vender conceitos imateriais (socialização, sonho, diversão, descontração, interação, blá blá blá…).

Mas marketing é marketing. A função do marketing é vender. Lotar agenda, lotar aula, aumentar demanda, etc. Não deixemos o marketing invadir o espaço do conteúdo. Se o conteúdo for ruim, não tem marketing que salve. O aluno vai amar até um determinado momento, mas vai pro próximo professor que oferecer “mais socialização, mais interatividade, mais emoção, mais dancinhas da moda”… às vezes até muda de atividade pra conseguir esses mesmos produtos intangíveis.

Noutro giro, corre-se o risco de adentrar outras áreas de atuação que não são, nem de longe, função do professor de dança (de qualquer dança), bem como fomentar a prática do “professor de ocasião”…. Aquele cara que fez umas aulas e acordou decidido a “ser professor de dança”. Não por amor à dança nem ao ato de ensinar… mas porque na mente dele, ele tem os pré-requisitos para fazer sucesso na área, a coisa do “líder” ou do “influencer”… E ele consegue, se ele tem o conhecimento tecnológico pra fazer isso acontecer. Ele cria uns perfis nas redes sociais, coloca os conteúdos corretos, trabalha o marketing dele corretamente e LOTA qualquer turma que ele montar. Vendendo felicidade, saúde, interação social, etc, etc, etc… e não a dança.

Já escrevi há uns anos atrás, numa matéria publicada pelo Jornal Falando de Dança (da época do finado ORKUT, do grupo Dança de Salão Bahia) que o grande problema das danças de salão, naquela época, era a mentira: O professor de tango que nunca fez tango na vida, o professor que diz que fez aula com Jimmy, mas que só tirou foto com ele no elevador uma vez; o cara que diz que é formado no método de Jaime Arôxa, mas na verdade só comprou o DVD dele na banca de jornal. Hoje, fora da dança de salão, já encontrei aquela professora de ballet dizendo que aplica o método da Royal Academy of Dance, mas só fez aula pelo método quando tinha cinco ou seis anos, quanto mais ser registrada; ou aquele professor que diz que dá aula de sapateado, mas só faz repetir os movimentos que viu em um ou outro filme, batendo o pé no chão sem nenhuma técnica… e até mesmo gente que faz um trabalho maravilhoso, mas, cooptado pelo “mercado” também cai na prática das mentiras pontuais (que fez curso disso e daquilo e daquilo outro, quando, na verdade, não fez, por exemplo).

No tocante à dança de salão, identifiquei (naquela matéria do Falando e Dança) o padrão de mentira através, justamente, do excesso de marketing. É aquele cara que dá aula de “Forró (pé de serra, rodado, cabrueira, de gafieira, estilizado, lambadeado, melado, pulado, retado e o novíssimo forró-lambazouk-love-arrochado) Salsa (on 1, on2, on3 e quadradinho de 8), Zouk, Tango, Bolero, Samba, Fox-trote, lambada-love, bachata-com-açúcar, Arrocha, Arrocha-universitário-com-pós-graduação-em-rebolada, Kizomba, Kizumba, Zumba, e também é mestre zen, zin, zoin”.

Note que não estou falando da ESCOLA que oferece tudo isso com vários professores diferentes… mas do INDIVÍDUO que é o “mestre de todas as danças do mundo”, aos 20, 30, 40 anos de idade com , 10, 15, 20 anos de carreira como dançarino e professor.

Hoje não mudou muita coisa. Só que as mentiras ficaram mais elaboradas. Alguns daqueles primeiros mentirosos fizeram sucesso, montaram escolas, e dão workshops com certficado, vendendo “saúde, socialização, bem-estar, emoção, felicidade, criatividade” e mentiras que se tornaram “verdade” (aspas propositais).

O que quero dizer, por fim… é que CONCORDO que “trabalhamos com gente” …TAMBÉM…

Mas não devemos esquecer que o nosso trabalho é a DANÇA sim. TEM QUE SER a dança, ou a arte vai ser sempre assim… “mera ferramenta” que pode ser trocada por outra ferramenta qualquer que faça o mesmo “serviço”.

Turma cheia sempre, claro… mas de preferência, sem muita rotatividade.  Novos alunos, claro… de preferência mantendo os antigos e, COM CERTEZA, mantendo a fidelidade com o objeto de estudo/ensino.

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O SAMURAI SOLITÁRIO.

Quase 18h. O céu começava a ficar escuro, mas ainda parecia dia. Neymar resolveu cumprir um último mandado, já que era no centro da cidade, no caminho casa.

  • Mandado de Penhora. Putzgrila… ninguém merece.

Passou pela rua onde haviam uns tamarindeiros plantados entre as pistas. Parou sua moto 125cc no primeiro sinal vermelho, já agoniado, pois saberia que quando o sinal abrisse, viraria à esquerda e só teria 10 segundos para pegar o outro sinal aberto. E pelo jeito que o carro da frente já se colocara virando para esquerda, como se fosse um carro de corrida louco pra ser dada a largada, saberia que pegaria o sinal fechado novamente. E assim o foi.

Parou a moto na frente da livraria que constava como referência do endereço. Avistou a plaquinha da loja “Nara.Com” na grade que fechava a escadaria que se erguia ao lado da livraria. Neymar parou a moto com cuidado, colocou o cadeado, pegou sua pasta estilo “carteiro” e lembrou das piadinhas infames que tivera que ouvir na última reunião do sindicato. Sacudiu a cabeça pra afastar a raiva e se dirigiu à campainha. Era um troço meio surreal. tinha uma câmera saindo do interfone, que só tinha um botão com a logomarca. Neymar apertou-o por uns segundos, o que fez um barulho de estática, como se fosse uma TV analógica fora do ar. Não sabia se havia surtido efeito, e já ia tocar de novo quando a câmera se mexeu em sua direção com um olho luminoso que o fez dar um pequeno passo pra trás. Lembrou imediatamente de George Orwell e da época da faculdade. Tentou  lembrar onde estavam seus livros antigos. Sacudiu os pensamentos aleatórios junto com sua cabeça quando a câmera lhe falou com uma voz de locutor de rádio:

  • Boa tarde, Nara.com. Em que posso ajudá-lo?

Era uma voz masculina grossa, desconcertantemente bonita. Por um segundo, Neymer achou que ele iria começar a narrar trechos bíblicos de forma dramática. Neymar pigarreou, um pouco sem graça, e começou seu discurso de sempre:

  • Boa tarde. Meu nome é Neymar, e eu estou procurando a senhora Nara Shikamaru.
  • Um momento, por favor. Quando o portão abrir, pode subir às escadas até o fim e virar à esquerda.

Eram, com certeza, mais do que dois lances de escada. Ajeitou o capacete no antebraço, fechou a sacola depois de pegar o mandado de penhora, e esperou. Um forte som elétrico e metálico fez Neymar perceber que a grade tinha destrancado. A escada escura se iluminou tão logo pisou no primeiro degrau. Procurou sem sucesso onde estava o sensor de movimento. Quando pisou no segundo degrau, o portão gradeado bateu atrás dele e um novo barulho metálico fez perceber que estava trancado. A luz do lance posterior da escada ainda estava apagada. De lá, só poderia virar à direita e continuar subindo. Quando chegou ao segundo lance, as luzes adiante se acenderam e as de trás se apagaram, deixando atrás de Neymar um abismo escuro, apenas com as luzes da rua aparecendo na grade lá em baixo. Neymar sentiu o pescoço arrepiar e começou a suar frio. Subiu o segundo lance de escadas um pouco mais rápido até dar de cara com outra grade e outra câmera “ciclope” acompanhando seus passos. A porta abriu com o mesmo barulho, Neymar passou e começou a subir o terceiro e último lance de escadas. Igualmente, as luzes à frente se acenderam e as luzes atrás se apagaram. Neymar começou a se sentir um pouco claustrofóbico e a solidão daquele corredor não estava ajudando. Ouviu passos na escada. Passos femininos, pelo “toc toc” característico de sapatos de salto.

  • Boa noite – disse uma encabulada e jovem mulher, muito bonita, enquanto terminava de abotoar a blusa branca com a logomarca da empresa.
  • Senhora Nara? – arriscou Neymar com alguma esperança.
  • Não… Não… é Senhor.
  • Eu?
  • Não… não, o Senhor, senhor – disse, apontando para Neymar – É Senhor Nara. É homem. Ele está lá no escritório dele. Pode ir subindo e vire à esquerda quando não tiver mais escada.

A moça continuou seu caminho, descendo as escadas. Quando ela passou por Neymar, o cheiro de seu perfume forte o fez lembrar que esqueceu de comprar seu remédio para rinite alérgica, e o cabelo vermelho com raízes louras lhe lembrou que estava faltando fósforos em casa. A tranca da porta abriu automaticamente, as luzes do lance inferior da escada se acendeu e a moça bonita continuou descendo, a porta se trancou sozinha, com o mesmo barulho de filme de terror tipo B. Neymar continuou seu caminho,terminou de subir o terceiro lance de escada e virou à esquerda. No corredor haviam cinco portas; a única aberta e com luzes acesas era a última. As luzes do corredor, obedecendo o mesmo padrão, estavam apagadas e se acendiam à medida que Neymar avançava; as luzes que ficaram para trás iam se apagando, deixando atrás de Neymar um denso rastro de escuridão.

Entrou com cuidado no escritório. Havia uma mesinha, com um computador desligado, um telefone fora do gancho. Atrás da mesinha, havia uma porta, que dava para outro escritório maior, com uma mesa maior, outro computador, uma impressora. Nas paredes, haviam monitores que mostravam números, linhas, gráficos e tabelas que Neymar não tinha idéia do que se tratava. Haviam diversos quadros com motivos japoneses, duas cadeiras na frente da mesa, uma atrás do computador. Não havia ninguém ali.

  • Boa noite… – disse Neymar, não sabia direito pra quem.

Ouviu um grito que parecia sair de uma estante grudada na parede, ao seu lado

  • Esperaííí.

Era a mesma voz grossa que o “big brother” da entrada usou para falar com ele. Neymar estava se sentindo incomodado em como achava bonita aquela voz. Mais incomodado estava quando percebeu que a estante era uma porta secreta, que foi se abrindo devagarzinho, revelando um homem atlético de quase dois metros de altura, nitidamente com descendência nipônica, vestindo um shortinho branco, exibindo um abdômen todo definido numa camisa de botão aberta com motivo havaiano.

  • Boa noite. Em que posso ajudar o senhor?

O gigante asiático falava um português perfeito, sem sotaque algum, com uma voz que parecia pertencer a um cantor de jazz afro-americano conhecido. Neymar continuava desconcertado e com medo.

  • Senhor, eu sou oficial de justiça. Vim aqui para proceder a penhora de bens até chegar a este valor, disse, estendendo à frente o mandado e o cálculo em anexo.
  • É o quê?  – disse o gigante japonês arrancando o papel da mão de Neymar e lendo apressadamente. – Por favor, entre aqui, tenho que procurar uma coisa. Sinta-se à vontade, quer uma água?
  • Não… obrigado.

Neymar o seguiu para dentro da porta secreta. Era um enorme quarto de dormir, e na parte de trás havia uma cozinha pequena, com um fogão, uma coifa, geladeira de duas portas, na lateral do quarto, uma varanda que dava para rua, detrás da avenida de onde viera. Havia uma cama grande, uma cômoda, um guarda-roupa. Em cima da cômoda, atrás da cama. havia uma espada japonesa e do lado da cômoda, uma porta que dava para uma espécie de “quartinho da bagunça”, para onde o gigante japonês se dirigia. Neymar permaneceu perto da entrada secreta do quarto e começou a estabelecer mentalmente valores aproximados para cada item que seus olhos batiam. Era quase automático. Parou e tomou um susto quando a porta-estante se fechou atrás dele com o mesmo barulho elétrico das grades da escada. O Gigante Japonês começou a gritar de onde estava:

  • BAAAAAKAAAAAAAA!

O Barulho de gavetas abrindo e fechando com estrondos, de coisas sendo jogadas no chão. Uma caixa de plástico cheia de papéis voou de dentro do quartinho.

  • BAKA-BAKA-BAKA-BAKA-BAAAAAKAAAAA!!

Neymar deu um passo pra trás e tentou abrir a porta secreta. Estava trancada, definitivamente trancada. Sua camisa estava encharcada de suor. Seu joelho ruim latejava de dor. Por enquanto suas cuecas ainda estavam limpas. “Se eu morrer aqui ninguém vai me achar, meu Deus”. Começou a olhar em volta e pensar em tudo que poderia ser usado como arma. Em sua cabeça começou a esboçar uma prece, mas subitamente, lembrou que era ateu, mas não conseguia parar de pensar em pedir auxílio divino.

O gigante japonês saiu correndo do quartinho de bagunça jogando uns papéis pro alto. apanhou um celular que estava em cima da cama. Neymar imediatamente pensou no valor aproximado do aparelho e esqueceu da prece. Muito nervoso, o rapaz esticou seu braço por sobre a cama em direção a Neymar, com uma mãozona pedindo para que esperasse. Neymar estava paralisado, quase amassando o mandado de penhora, de tanto nervoso.

  • Otōsan! Otōsan!

Neymar lembrou de um desenho animado que seu sobrinho gostava de assistir e ficou imaginando se iria sair alguma bola de energia da mão do gigante.

  • Orokana mishiranu hito ga anata ni ataeta sono bunsho wa doko ni arimasu kaaaa? Ken! Ken! Dono Ken?

Neymar ficou um pouco tonto. Segurou o mandado com uma única mão, colocou o capacete na bancada perto dele, e se apoiou no que parecia ser um cabideiro, mas que agora percebia tratar-se de uma lança, onde estava pendurada uma bandeira em que metade era a bandeira do Brasil e a outra, a bandeira do japão. Não tirou mais a mão dali “Se ele pegar aquela espada, eu vou jogar isso na cabeça dele”

  • Katāna no saya de?

Katana significava espada, disso Neymar sabia. Tirou a mão da lança e enxugou na calça. O Japonês esticou a mãozona pra espada japonesa que estava na cômoda, desligou o telefone e jogou em cima da cama. Com uma mão o gigante japonês segurou o cabo e com a outra tirou a bainha. Neymar lembrou-se que era única calça limpa que tinha, e se travou todo. O japonês jogou a espada em cima da cama, e balançou a bainha até sair um papelzinho todo dobrado. Apanhou o papelzinho todo dobrado, abriu-o e passou por cima da cama, em direção à Neymar.

  • Aqui. Aqui. Meu pai já pagou essa dívida! Eu sabia! Estão me cobrando de novo a mesma coisa!

Neymar tremia. O suor frio pingava de seu queixo e seu nariz. esticou devagar o braço, pegou o papel que o japonês lhe dera. Era um depósito judicial feito há mais de 2 anos. O número do processo estava correto, o nome do credor era o mesmo, assim como o CPF. O valor era aproximadamente o mesmo, e a diferença existente provavelmente se devia à correção monetária.

  • O Se-Se-Senhor  po-pode tirar uma có… có… cópia, por favor? – Disse Neymar com dificuldade, apontando para uma impressora que tinha no cantinho, em uma escrivaninha..
  • Sim, claro, neste instante.

O japonês pegou o papel, percebendo o estado de nervos do nosso nada intrépido herói, colocou na impressora multi-funcional. Entregou a cópia ao Oficial de Justiça e pediu desculpas, juntando as mãos em forma de oração e baixando a cabeça várias vezes. Neymar aceitou a água que o Sr. Nara lhe havia oferecido antes, pediu para usar o banheiro e molhou o rosto. A porta secreta estava aberta quando saiu do banheiro. Neymar se apressou em esperar o Sr. Nara em seu escritório, e não mais em seu quarto.

  • Espere um minuto, por favor – disse o Sr. Nara enquanto mexia no seu celular.

As luzes do corredor se acenderam completamente. Ao longe, ouviu o chiado metálico-elétrico das grades sendo destrancadas, tudo controlado pelo celular do Sr. Nara. Neymar começou sua viagem de volta com muito mais tranquilidade e ao descer. o último lance de escada, já se perguntava se a farmácia estaria aberta para comprar seu remédio de alergia. Quando passou pela última grade e ouviu o barulho que indicava que estava trancado para fora, lembrou-se que esqueceu do capacete. Olhou em volta, procurando sua moto. Não estava mais lá.

  • Era melhor ter deixado esse mandado para amanhã – disse, quase chorando.
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O pé da cama

Os passos eram o mais firme que ela conseguia. Seus pés calçados com uma sandália de dedo,  já gasta pelo tempo, tinha a cor parecida com o couro do calçado, e com ele se confundia ao ponto de as pessoas olharem para os seus pés três ou quatro vezes, para identificar se ela estava mesmo descalça a caminhar pela calçada do fórum. Se desconcertavam ao ver que estava calçada, e tinham que engolir seus olhares de reprovação.

Passou devagar pela barraquinha de mingau, curvada sobre seu companheiro – um pedaço de maçaranduba forte que fazia vezes de bengala, com uma almofadinha de retalhos de chita amarrado com fibras de sisal enrolados, que nem chegava a ser uma corda ou cordão. Já havia vivenciado duas estiagens longas em seu pequeno pedaço de terra, deixado pelo seu finado pai. Dos seus 15 filhos, 3 sobreviveram tempo o suficiente para lhe darem 19 netos. Destes, 5 ainda eram vivos e 4 moravam em São Paulo, tentando a vida em canteiros de obra.

A dona da barraca a cumprimentou com um involuntário sorriso misto – meio solidariedade, meio pena – que encabulou a pequena sertaneja, ao ponto desta apressar o passo. Fora interrompida pela dona da barraca, que se meteu em seu caminho com a pouca rapidez que a juventude não tinha levado quando foi embora:

– Espere Dona Tonha. Sou eu, Nissinha, filha de Zé-do-Açude. Venha aqui…

A senhorinha não teve alternativa. Estancou, apoiando a axila sobre o pano amarrado na sua bengala improvisada, que lhe rendera o apelido infame de “Tonha do Cacetinho”. Lembrou-se da menina que brincava fazer brinquedos com um de seus filhos, o mais novo. Era uma menina bem branquinha, filha de um povo que tinha vindo de fora pra tentar a vida naquela terra seca, mas que não deu muito certo. O homem achava que abrir um Açude bem grande era o suficiente para guardar a água de uma chuva para o tempo que não chovesse. Gastou todo dinheiro que tinha para ganhar o apelido de Zé-do-Açude e mais nada. Mas, diferente do pai, era inteligente a menina. Lembrou-se de que enfiava duas penas de saqué num sabugo de milho e jogava pra cima, pra ver ele cair devagarzinho, girando no ar. Espremeu da memória o nome do brinquedo: “elicópo”. Lembrou-se, também com dificuldade, do apelido da menina: Nissinha. Ela tinha casado cedo com um vizinho de suas terras. Foi só a menina sangrar, que os pais colocaram ela na casa de um vaqueiro e foram embora de volta pra o lugar de onde tinham vindo. A menina ficou chorando enquanto o pai e a mãe iam embora, também chorando, no fundo de uma charrete puxado por um jegue. Tonha lembrou-se que chorou também, escondida de seu finado marido, com medo de levar uma surra de bainha de facão por se meter na vida dos outros.

– Nissinha, fia de Zé-do-Açude – contorceu um sorriso amarelo e quase sem dentes. A pele de seu rosto lembrada a terra  rachada do fundo de seu quintal. 

– Tome, Tonha, beba um mingau, ó… vô misturar pra senhora mungunzá e “rozdoce”. Cuida que tá quente, viu.

A Velhinha sorriu mais aberto. Tinha comido uma massinha de café com leite e farinha de copioba antes de sair de casa, mas isso foi de manhã bem cedinho, e já ia dar meio-dia. Se apoiou curvada sobre o meio-cajado de maçaranduba, apoiando o ombro que não doía, e alcançou o copo plástico com as duas mãos. Eram dois copos, um dentro do outro, percebeu quando sentiu que não estava tão quente ao toque. Começou a bebericar devagar. De vez enquando parava, tentava olhar para o céu – sempre gostou de olhar o formato das nuvens – mas sua coluna não permitia mais um ângulo ideal. Se contentava em alcançar o horizonte com a vista. Demorou vários minutos. Neste tempo, lembrou-se de coisas que já faziam rir. Mas logo lembrava-se do motivo que o levava a sair a sua rocinha, passar pela sede do povoado, pegar uma condução coletiva caindo aos pedaços para chegar até o fórum daquela cidade interiorana da Bahia. Segurou o choro, agradeceu o agrado da velha conhecida e apressou o passo. Entrou no prédio. Para ela é como se entrasse num mundo diferente. Via pessoas vestidas como se estivessem num enterro. Tudo de preto. Outras eram como ela, mas jovens, usavam “roupas de missa” e não de trabalho.

– Moço. Ei, moço… o sinhô me ajuda a chegá nesse lugá aqui? – Ela venceu sua timidez, perguntando a um jovem que passava perto, mostrando um pedaço de papel dobrado várias vezes, enegrecido pelo seu próprio suor e quase rasgando pelo mesmo motivo.

– Pois não senhora, deixe-me ver – ela agora percebia que ele usava um cordão azul com um cartão pendurado no pescoço – É no Juizado Criminal. Fica lá em cima, no sétimo andar. Eu estou indo pra lá, por coincidência. Venha que eu lhe acompanho até lá.

O Jovem vestia uma camisa verde-escuro que fez Tonha se lembrar de sua infância, antes da estiagem. Tinha, à frente da casinha de seu pai, um pé de Algaroba. Foi seu pai que plantara, e dizia que era uma promessa que tinha feito, que quando fugisse do “sinhô” e fosse ter suas terras, que ia plantar uma árvore na frente de sua casa. Tonha nunca entendeu quem era esse “Sinhô” de quem seu pai fugira.

O jovem a fez entrar num quartinho cinza e pequeno, cheio de luzinhas numa parede. Ela achou que o rapaz tinha se enganado. Mas a porta se fechou atrás dela, o jovem apertou uma das luzinhas e o quartinho começou a se mexer. Tonha se desequilibrou e o rapaz a segurou para que não caísse. Quando a porta abriu, eles estavam em outro lugar. Tonha foi acompanhando o jovem devagarzinho. Tinha uma fila, mas o rapaz disse que ela poderia entrar na frente de todo mundo. Não gostava de fazer isso, mas estava tão cansada, e aquele mingau não ia ficar muito tempo no seu estômago.

– Ibiratan. Tem uma senhora com uma intimação de uso de drogas aqui. Veja aqui, que preciso ver aquele outro processo…

Tonha não entendeu poque um homem mais jovem tava dando ordem num homem mais velho. Tinha gostado tanto do menino, mas agora já achava ele mal-educado.

– Diga, minha senhora. O que foi? – Disse um homem

– Fio… ói… eu recebi essa carta aqui, que não é pra mim, é pro meu neto…

– Sim… ele tem que vir aqui pra audiência hoje, daqui a pouco.

– Má ói… ele num vem, viu… num tem condição não…

– Mas senhora, ele tem que vir. Veja. Eu sei que parece uma coisa muito séria, coisa de justiça, assim… o pessoal de mais idade já pensa que vai prender… mas é um crime de menor potencial. É um ‘crime pequeno’ , ele não corre o risco de ele ser preso. Ele vem aqui, vai ser encaminhado para prestar serviço. Não tem medo. Se ele não vier, é que pode ficar feio pra ele depois.

– Mas isso que eu quero, moço.

– Com assim, senhora? – Ibiratã ficou meio perdido, sem entender muito bem o que ela queria dizer. Já trabalhava há 8 anos só naquele mesmo cargo, naquela mesma unidade. Ia completar 20 anos de Tribunal, um total 30 como servidor público, pois vinha de outra autarquia estadual, onde passou 10 anos carimbando e datando papéis que não sabia de onde vinham e nem pra onde iam. Não era exatamente a pessoa mais brilhante do mundo, e tinha consciência disso. Mas sabia que havia algo errado com aquela velhinha.

– Meu fio. Eu qué que vocês prenda meu neto. Veja. Eu num aguento mais o povo procurando pur ele lá in casa.

– Mas Senhora, ele mora lá com a Senhora?

– Mora nada, moço… ele vem na hora que qué, pega minhas coisa e vende pra comprá aquelas porcaria que ele usa. As vêiz ele chega doidão, e dorme do lado do fugão. Ónti ele durmiu do lado de minha cama.

Enrubescido, Ibiratã explicou com calma, que ali era um Juizado de pequenas causas, que não poderia expedir ordem de prisão, que uso de droga não dá prisão, que ela deveria procurar a delegacia. Todas as informações possíveis que se poderia prestar a uma pessoa naquela situação.

– Mas moço… como é que eu faço agora. Veja… eu não tenho como voltar pra casa se não forem lá prender meu neto.

– Como assim… ele tá lá na casa da senhora? Ele não quer sair, é isso? Então o caso é grave…

– Não moço… querer sair ele ate deve querer. Mas ele é fraco. Não vai conseguir.

– Não vai conseguir o quê senhora? Ele tá doente, debilitado?

– Não moço… é que eu tenho um jumentinho, num sabe?

– Como assim minha senhora? – Ibiratã já pensava tratar-se de mais uma das senhoras senis que aparecem de vez em quando no Fórum.

– Veja… eu tenho esse jumentinho que eu prendo numa corrente. Mas ontem eu soltei meu jumento e deixei ele fugir

– Porque, minha senhora? – Ibiratã não sabia se estava curioso ou entediado. Já tava quase na hora de encerrar o expediente e ir pra casa tomar uma cerveja.

– É que eu usei a corrente e o cadiado pá prendê meu neto no pé da cama, moço… puquê se ele continuá usando aquela porcaria ele vai morrê. E eu num quero que meu neto morre, moço. É meu único tisôro. Manda os ômi í lá in casa prendê ele, por favor..

Ibiratã se viu com o rosto molhado e salgado, assim como os dois colegas atrás dele.

* * * *

O neto de “Tonha do cacetinho” foi detido e encaminhado a uma instituição particular de recuperação de drogados – pago pela promotora. Mas fugiu, e meses depois foi preso por tráfico, em outro estado. Morreu numa rebelião enquanto aguardava julgamento.

Dona Tonha morreu sozinha, de causas naturais e foi encontrada por Nissinha-do-mingau, quando foi procurá-la para dar a notícia da morte de seu neto.

Seu cajado improvisado estava, encostado trás da porta. Na mesa havia uma caneca de flandre com restos de massa de café-com-leite e farinha de copioba. Ela estava deitada no chão de seu quarto, vestindo um vestido branco rendado, calçando os chinelos de dedo de sempre. Se alguém invisível estivesse ali, testemunhando seus últimos momentos, a veria silenciosa, a verter as mais dolorosas lágrimas sobre uma corrente enferrujada ao pé da cama.

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O OFICIAL QUE NÃO ESTUDOU

O sol, apesar de estático no espaço, já se encontrava próximo ao topo da parábola vitual que desenvolve no nosso céu. Por volta das 11:20, naquela cidade do “sertão-agreste-ou-semi-árido”, um dos oficiais do Tribunal de Justiça do Estado diligenciava em um bairro não muito distante do centro.

Neymar dirigia sua moto de 125cc com extrema cautela, tentando achar o filete de terra entre os buracos da rua. A chuvarada da noite anterior tingira de vermelho-barro desde o meio-fio à base dos muros da rua larga. Em três das esquinas, os bares, com seus usais clientes, emitiam o usual ruído. Mescla de conversas desencontradas, copos, garrafas e as músicas características daquela região: pagode no bar da primeira esquina, jovens com poucas roupas dançavam ao lado do Punto amarelo e preto com o porta-malas aberto exibindo o equipamento de som de grosso calibre; Um Cover de Beto Barbosa habitava o aparelho de som do segundo bar, cuja entrada era estreita e não havia área externa, a luz parca que se via de fora insinuava que algo mais íntimo acontecia lá dentro; a terceira esquina exibia um barzinho pequenino – quase um beco – sem cadeiras ou mesas, um minúsculo alpendre de zinco e inúmeras pessoas sentadas no passeio, encostadas na parede, tomando cravinho e ouvindo Peter Torsh. Neymar ficou grato a Deus (em quem não acreditava) porque a intimação deveria ser realizada duas quadras a frente.

Com alguma dificuldade, Nosso intrépido herói aproximou-se do endereço correto, abaixou o tripé da moto e, assegurando-se de que o mesmo não afundaria na lama, dirigiu-se à campainha da casa. Tocou uma vez, e ali permaneceu, esperando que alguém viesse atender. A espera durou um par de minutos, e antes que Neymar tocasse a campainha novamente, um morador da casa ao lado o interpelou, por estranho que ele achasse, amigavelmente:
– Diga aí moral! Era o quê?

Neymar estranhou a solicitude, mas respondeu:

– Estou procurando o Senhor Maquissuél Santos Silva.

– O Quinho? Ele Taí… já chamou?

– Já…

– Peraí.

O vizinho solícito entrou na sua própria casa e, alguns poucos minutos depois, apareceu na frente do endereço constante na intimação, acompanhado por um rapaz magro, de barba mal-feita e olhar desconfiado.

– Ó aí o moço te procurando.

Neymar dirigiu-se ao rapaz:

– Senhor Maquissuél?

Obteve como resposta um balançar de cabeça quase indecifrável. Satisfeito, Neymar continuou:

– Senhor, eu sou Oficial de justiça e vim lhe trazer esta correspondência do Juizado…

– Sou eu não – interrompeu o magro. – Conheço não, sem quem é não.

Ao que o “não-Maquissuél” virou para adentrar a residência, Neymar tornou a interpelá-lo.

– O senhor poderia me apresentar um documento qualquer do senhor, para que eu possa certificar no documento que o endereço está errado?

– Véi… Vou dar documento nenhum não. Não sou eu não… meu nome não é esse não. Vá-te puma porra que eu num vou assinar caralho nenhum. Vá-te pa porra, vá, se pique.

Aborrecido com a situação, Neymar apresentou uma voz mais firme, quase como se estivesse interpretando um papel na novela das oito:

– O Senhor me respeite! Estou aqui fazendo o meu trabalho. Eu sou oficial de justiça, sou funcionário público rapaz!

O magro emendou a resposta imediatamente, deixando sem ação e resposta o nosso outrora intrépido Neymar:

– Porque não estudou! Se estudasse ia ser promotor, Juiz, Delegado…. Não ia ter que ficar vindo aqui na boca-quente arriscando levar tiro. Ia ficar sentado no escritório mandando nos otário que nem tu. Vai estudar, fio. Vai estudar e me deixe quéto, vá… Se pique. Bora. Vaze, antes que eu perca a paciência, vá.

Neymar sentiu o corpo retesar por instantes. O joelho, que já passou por cirurgias devido a sua pregressa vida de atleta, bambeou e quase dobrara no barro vermelho da calçada incompleta. O suor frio escorreu farto pelo seu rosto e costas e, súbito, sentiu algo pastoso e quente na parte de trás de sua cueca. Engoliu seco, esboçou um pedido infantil de desculpas, mas a voz não saiu. O magro virou-se e entrou em casa, o vizinho solícito passou por Neymar e disse:

– É ele mermo, viu, moral. Maquissuél. O povo aqui chama ele de “quinho-coisa-ruim”. É ele mermo. Quer que eu chame de novo? pode entregar os papel que é ele mermo.

Com as coxas apertadas e se aproximando da moto, Neymar respondeu:

– Não é tão urgente não. Eu entrego outro dia.

* * * * *

O digitador retorna do corredor, após realizar o pregão:

– Dra. Tereza, A parte acusada não compareceu.

– No aviso de retorno da intimação pelo correio tem dizendo o quê?

– “Não procurado”

– Mas não é possível! Já teve intimação por oficial de justiça?

– Já.

– E qual a certidão?

– “A pessoa que o vizinho disse ser o Sr. Maquissuél disse não ser ele mesmo, que não ia assinar nada e que não ia exibir documento nenhum e que Juiz, Promotor e Delegado não trabalha e que se este Oficial tivesse estudado também não ia precisar trabalhar”

(Todos os personagens são fictícios… os acontecimentos nem tanto)

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Crônicas de um mundo estranho. Episódio 01: HIPO-CRISIS

outubro 5, 2017 1 comentário
“Sossó” é funcionário de uma prefeitura do interior da Bahia. Branco. Assumidamente Gay, militante LGBT, ateu orgulhoso. Sua página pessoal do facebook é recheada de mensagens contra o preconceito, pregando a tolerância e o respeito entre os povos.
 
Numa cidade próxima, onde “Sossó” morava antigamente, um homem se suicidou. Mais especificamente, um homem negro enforcou-se.
 
A comoção tomou conta de muitos que conheciam o rapaz e de outros que nunca o viram. Muitos jornais e páginas do facebook noticiaram o triste fato. Em uma destas postagens de facebook, a família recebia mensagens de condolências de diversas pessoas. Entre as várias condolências, diversas referências à várias religiões distintas. A família lia estes comentários.
 
“Sossó”, que não conhecia o rapaz, resolveu comentar e responder vários comentários nesta postagem, por não concordar com o tom religioso de algumas destas mensagens de pesar. Nestes comentários, ele fez pouco caso de espíritas, cristãos, postou risadas e sugeriu que era apenas menos uma pessoa neste mundo cão, sugerindo que as pessoas largassem mão de escrever baboseiras. A família do rapaz que se matou estava lendo aquelas postagens.
 
“Sossó” continua bem na dele, como funcionário daquela prefeitura do interior da Bahia, bem próxima da cidade onde o rapaz se suicidou. Na sua página pessoal, ele postou mais uma frase criticando a falta de amor no mundo e sugerindo que falta tolerância.
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Sobre Técnica, Arte e pessoas medíocres.

Inicialmente, preciso fazer uma exortação aos que já se iniciam no mundo artístico querendo se libertar dos “grilhões opressores” da técnica.

É preciso conhecer MESMO a técnica para “se livrar” dela, e não ACHAR que conhece. Você não pode “se livrar” do que não tem. Tome tento. Se você não domina nenhuma técnica, você não tem “grilhão” nenhum pra se libertar. Não existem esses grilhões idiotas que você tanto odeia… você está odiando uma “coisa” que não existe.

Agora… claro que isso não quer dizer que você não possa revolucionar e inventar suas próprias técnicas sem conhecer nenhuma outra técnica anterior. Existem gênios neste mundo… quem sabe você não é um? Vai saber…

Há uma diferença absurda entre arte contemporânea (obviamente falo de dança, mas imagino que se enquadra em outras áreas) e arte sem fundamento, sem história, sem evolução pessoal. Usar-se da crítica à téchne como desculpa pra chutar o balde e fazer qualquer porcaria e chamar de ars, demonstra desconhecimento ou descaso, sobretudo, ao fato de que originalmente os dois termos significavam exatamente a mesma coisa (o primeiro para quem falava grego e o segundo para  quem falava latim).

Obviamente em nosso mundo ocidental moderno essa correlação entre “arte” e “técnica” foi ficando cada dia mais complexa. Os termos passaram a designar elementos distintos e suas conexões cheias de lacunas e bolhas turvas de pseudo-compreensões “filosóficas” (por favor, notem as aspas propositais). “Técnica” passou a ser designativo de um “procedimento eficaz”, argumento meramente utilitarista arranhado pelo aço, queimado no carvão e martelado pelo fordismo. “Arte” passou a designar uma estranha forma de acessar o invisível através de sensações, induções, e invenções de “coisas etéreas” que não são passíveis de explicação, apenas de “sentir”. Claro que não concordo com as definições acima, mas não tem como negar a sua força de convencimento até mesmo nos dias de hoje. A “técnica” adquiriu um elemento terreno e palpável, enquanto a “arte” foi elevada a um estado de sublimação holística que reverbera sons inaudíveis que transcendem a capacidade humana de concebê-la neste mundo aprisionado pelas duras regras da física. <<insira palavrão da sua escolha aqui>>.

Enquanto o utilitarismo medíocre transformou a téchne numa dura ferramenta destinada à execução eficaz de qualquer tarefa terrena, desvinculando-o de qualquer outra definição que não seja “um meio para um fim”, esse holismo fuleiro está, na verdade, matando o antigo conceito de ars e o substituindo por um simulacro mal-intencionado. Daquilo que se esvazia a essência, torna-se mais fácil seu controle, manipulação.

“Arte” é “qualquer coisa”.

“Técnica” é “uma prisão”.

Pessoas que assim simplificam a vida artística são pessoas medíocres. Não sejam pessoas medíocres.

A ojeriza vazia à técnica é uma deformidade de caráter que tem se proliferado absurdamente no meio artístico. Espero que isso passe um dia.

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“Qui KiZomba é essa?”

Mais um dos meus “diálogos fictícios”. Faz tempo que eu não inventava um desses… Mas antes um preâmbulo rápido:
Há que saiba que em determinado momento da minha vida eu tive que fazer certas escolhas complicadas. Algumas destas escolhas me levaram a me afastar do “mercado” das Danças de Salão. Quando passei no TJ e minha fonte de renda principal mudou, passei a me dedicar exclusivamente às danças que EU mais gostava, deixando de lado todas as outras. Em determinado momento eu simplesmente parei de dar aulas, e passei apenas a me reunir em casa com amigos e conhecidos, no finado “Clube de Tango”.
Antes MESMO de entrar no TJ, eu já tinha começado a me “especializar” (embora eu não ache que essa palavra se aplique corretamente ao que fiz). Eu me tornei “uma pessoa muito mais teórica do que prática”, o que não considero algo negativo. Vamos, então ao “DIÁLOGO FICTÍCIO” de hoje.
***
Apressado, Gê correu para o elevador:
– Segura, Duda… Segura!!!
– Relaxe, man. Num vô sem você não, senão a gente num cunversa. Vai subir?
– Vou. Tô vino agora de um workshop bala de Kizomba, pae… cum professor istrangêro.
– Hm. E aí, gostou?
– Achei massa!! Agora achei uma viaje qui uns passinho que aprendi lá parecia com aqueles que a gente fazia lá no clube de tango… e outros com uns de salsa daquele curso com Alexei, tu lembra?
– E o professor era Angolano mesmo? aprendeu lá?
– hã?
– O professor… ele estuda cultura Africana também? ou só dá aula de Kizomba?
– Não… ele é Argentino. Mas já deu aula na Alemanha, em Londres… Ele aprendeu Bachata lá na Itália. Aí tem uns quatro meses que ele se especializou em Kizomba… Uma viaje o workshop dele, mééééén… cheio de muléééé…

– Hmmm… entendi. Mas e aí? como é assim a aula? Que movimentos são esses que vc disse que parece com tango, salsa…

– tipo… tem aquele com as sacada de perna, tem uns “ésse” também… mas é tudo bem sensual… rebolando. Aí tem uns giros parecidos com a Salsa. Tudo bem sensual, bem rebolativo. Lembra um pouco o zouk…
– Bom… eu não entendo nada de Kizomba… nunca fiz uma aula sequer. Sei que se trata de um elemento importante da cultura negra e africana. Um dia, quem sabe, eu faço umas aulas. Quem é esse professor mesmo?
– Péra… vou mostrar uma foto… aqui ó… esse aqui do meio… o lôro…
– ….   valeu man… meu andar é esse… vc fica aqui?

– Não… esqueci um negócio lá em baixo… vou descer…

– Vá lá… desça mesmo…

– oi?

– Nada não… vá lá… até…

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P.S. Estamos na era do youtube, gente… comparem os  vários “estilos” de Kizomba que lhe são apresentados. Vejam quais deles são fiéis ao ritmo original e quais deles foram modificados para se enquadrar em um mercado pré-existente. Sobre as “Kizombas” menos elaboradas, sem elementos de zouk, salsa e tango, cabe lembrar que  existe outra dança africana, também dançada em Angola, chamada “Tarraxina” ou  “Tarraxinha” e que é comumente “vendida” como Kizomba. 😉

Como eu disse… danças africanas não são minha praia… eu não sei nada de Kizomba pra sair ensinando…   mas pelo menos eu posso dizer que não saio inventando passo rebolativo pra dar workshop.

Boa noite e de nada…

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