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A dança e a síndrome do copo vazio

fevereiro 28, 2011 10 comentários

Há um hábito muito estranho no mundo da dança. Mas especificamente no mundo de quem escreve sobre dança, seja na internet (essa terra “quase” sem leis) ou em edições mensais impressas em papel brilhoso e distribuído por todo o Brasil.

É o terrível hábito da superficialidade.

É como se a profundidade no escrito sobre dança representasse alguma ameaça cataclismática para a sobrevivência da arte. Como se o único lugar posível à discussão de temas importantes sobre dança fosse a universidade – aquele meio supostamente pernóstico que todos, principalmente os ballezeros clássicos, amam apartar do cotidiano. A escrita não-acadêmica sobre dança têm se tornado cada vez mais vazia de importância e, principalmente, medrosa. Cada vez mais cheias de eufemismos baratos e rasgações de seda.

Criticar um espetáculo ou uma coreografia sem ser interpretado como um troll, então é uma tarefa tripla: (1) explicar que trata-se de uma crítica embasada e argumentada e não de uma tentativa de atribuir deméritos; (2) criticar e (3) explicar que uma crítica não desmerece o trabalho de um profissional.

Lendo o que escrevi até agora, parece poder ser aplicado a qualquer área artística. O diferencial na dança é que os melindres estão sempre na superfície, porque SÓ HÁ SUPERFÍCIE. Rasgadores de seda e trolls dividem espaço virtual e físico.

De um lado escreve-se uma matéria sobre o papel do cônjuge no mundo da dança como se fosse parte de um livro de auto-ajuda e sem citar um único exemplo real; escreve-se sobre como um dterminado concurso foi “marmelada”, sem explicar o porquê da acusação; do outro lado, fala-se de como foi maravilhoso o trabalho de professora fulana, ou da importância de cicrano para a tal “história da dança”, sem citar um único trabalho importante dos ditos-cujos (e , em geral, de cujus).

Eu, por exemplo, Não tenho como avaliar um excelente bailarino, porque eu sou um péssimo bailarino. No entanto, posso muito bem perceber quando algo é tão ruim que até eu, que tenho conhecimentos limitadíssimos de ballet, tenho vontade de arrancar os olhos. Dias depois, leio em blogs “especializados” que aquele trabalho foi lindo, maravilhoso e que a professora se superou. Me faz ter vergonha de ter alguns poucos conhecidos no mundo da dança. SÉRIO! Grandes revistas, pequenos blogs, por favor entendam: A dança é uma arte e não uma arena política. Ás vezes acho que todo dançarino e professor de dança é meio advogado (no mal uso da palavra).

Nas danças de salão (e eu insisto no plural e nas iniciais minúsculas) o caso fica ainda pior: conhecimeto é substituído por estratégia; conceitos essenciais por repetições de “passos básicos”; ritmos culturais riquíssimos, donos de suas próprias didáticas e até mesmo literatura, diminuídos ao status de “modalidade” ou “estilo” de uma tal “Dança de Salão” que nem sequer tem regras definidas como a Intenetional Ballroom Dancing ou, no Brasil, a Dança Esportiva.

Sonho com o dia em que se escreva com real seriedade e imparcialidade sobre dança.

Sonho com o dia em que, ao pedir opinião sobre um trabalho, um coreógrafo ou dançarino realmente queira ouvir/ler de tudo,  esteja preparado pra receber o que vier.

Sonho com um “jornalismo” de dança formado por pessoas que entendam DE VERDADE sobre o que escrevem.

Sonhar não custa nada…

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