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Sobre a “quididade” do Tango

março 7, 2011 1 comentário

(Isto é um texto no estilo “brainstorm”. Isso quer dizer que o encadeamento de idéias não é consistente e muita coisa de útil será largada no meio do caminho por falta de atenção. Leia se estiver com paciência ou se interessar muito pelo assunto.)

É um tema recorrente nos meus momentos de “pensação” sobre dança. Tudo que leio ou ouço em relação à história do tango enquanto música e enquanto dança, em relação à didática e prática do baile, tudo que é escrito a respeito do tema “Tango” parece supor que a necessidade de conhecer o “o que é” Tango iniexiste ou, o que é pior, já está satisfeita. Às vezes acho que sou um LP arranhado rodando sob uma agulha gasta (P#^! Q#% P#!%&… agora percebi que tou ficando velho).

Vários autores defendem suas teses de origem do ritmo musical e da dança – e, ao mesmo tempo, costumam atacar incansavelmente a tese diametralmente oposta. Inegável a influência da Habanera e do Candombe na formatação atual do ritmo, mas há discussões sobre qual das duas influências é preponderante. Discussões insosas e chatas. Para não dizer que são inúteis. Isso não me coloca nem perto da resposta da minha pergunta inicial:  “O que é” Tango.

A violência crua do senso comum, nos cospe na cara que o Tango é:

  • Uma preparação para o ato sexual. O prenúncio do desejo de sexo.
  • Uma dança sensual e sexy
  • Uma dança romântica
  • Uma música de sofrimento
  • Uma dança que nasceu nos prostíbulos dos portos de Buenos Aires

Quisera eu saber se o que me incomoda mais é a leviandade dessas acepções ou a crueldade com que essas frases assumem uma certa “validade” dia após dia, chegadno ao status de “verdade” sem ter tal valor. Adorarei escrever sobre cada uma dessas frases malditas que sou obrigado a ouvir “vezenquandos”, mas antes, vamos seguir na busca por uma reposta mais concisa sobre “o que é” Tango.

A tarefa de descrever “o que é” Tango, em geral, fica a cargo da função poética.

O letrólogo Hélio de Almeida escreveu um livro magnífico (ao qual tive acesso por meio do amigo Manabu, mas, vergonhosamente, ainda não o tenho na minha prateleira) chamado “Tango: Uma possibilidade Infinita”. Trata-se de uma percurso  cuidadoso entre documentos, canções e histórias sobre as origens e sobre o desenvolvimento do tango. A função poética aparece em sua escrita todo o tempo, mas como coadjuvante; um mero instrumento para que o leitor consiga informar-se sobre a história de um ritmo musical e dança chamados “Tango”. No entanto, ao tentar achar a “quididade” do tango, Hélio de Almeida recorre unicamente à poesia, afirmando que o Tango “é uma possibilidade infinita”. Ainda que depois tente conectar isso a características da dança e da música, o tom poético continua hegemônico.

Enrique Santos Discépolo, muitas vezes descrito como o maior poeta do Tango, tem diversas tentativas de definições para o tango, sendo a mais célebre delas a de que “Tango é um pensamento triste que se baila”. Frase repetida levianamente por diversos “profes” de Tango – que muitas vezes desconhecem até mesmo a existência de escritos de um poeta Napolitano chamado Discépolo que embarcou em 1871 à Argentina, com destino a Buenos Aires.

|curiosidade| A obra mais célebre de Discépolo é “Cambalache” que foi traduzida quase ao pé da letra e gravada pelo feirense Raul Seixas, no mesmo andamento da música original, com quase o mesmo arranjo, substituindo o bandoneón pela guitarra e mudando alguns poucos versos que ficariam estranhos em português. |/curiosidade|

Discépolo teve uma vida difícil, recheada de perdas de amores e desilusões. Foi influenciado por Baudelaire e frequentava assiduamente a vida boêmia de uma Buenos Aires obscura dos idos de 1915  a 1923. É natural que tenha visão pessimista do mundo… e do Tango. Mas é numa entrevista à revista Comedia, em que Discépolo tenta explicar porque se dedica ao tango, que ele parece mais se aproximar à minha idéia imatura de “o que é” Tango:

Escribo Tangos porque me atrae su ritmo. Lo siento con la intensidad de muy pocas otras cosas. Su Síntesis es un desafío que me provoca y que acepto complacido, aun a riesgo de lso malos ratos que paso gestándolo. (…) Quiero que la música diga lo que luego aclararán aun más las palabras. (Protagonistas de La Cultura argentina: Enrique Santos discépolo – 1a ed. Buenos aires: ed. Aguilar)

Eis que então: o Tango é um ritmo intenso. Tão intenso, para Discépolo, que ele o sente como poucas coisas podem ser sentidas.

Contradizendo o próprio Discépolo, o  Tango não é um sentimento, mas algo que pode (e, na minha opinião, deve) ser sentido com uma intensidade tal que nos permita aproximar de suas outras características.

Ainda não respondemos, no entanto, “O que é” Tango, pois com tal pergunta eu desejo saber o que é o Tango e e nada mais pode ser a não ser o Tango. Ou melhor, que características possui o Tango que o difere de outros ritmos intensos?

Ou, a pergunta que estraga todo caminho até aqui: “O que significa ser um ritmo intenso?”.

Ao afirmar que é um ritmo que pode ser sentido com intensidade, afirmamos que todos os aspectos sensoriais enviovidos na construção e audição do Tango chegam ao nosso cérebro com uma força tal que o percebemos [o tango] como algo “intenso”.

O Tango é um RITMO e ele é um RITMO intenso. Mas o que difere o Tango de outros ritmos que podem ser considerados intensos? Para Discépolo, a resposta reside na letra. A música deve esclarecer (tornar mais claro) o que a letra já diz. Para Discépolo, a letra é o cerne do Tango.

Não é preciso dizer que, apesar do prestígio do qual goza Enrique Santos Discépolo frente às “autoridades” do Tango argentino, essa não é uma visão majoritária, mas compartilhada por praticamente todos os poeta ligados ao cenário Tanguero. Há poesias de Tango tão belas e intensas que são declamadas e apreciadas como parte da cultura tanguera, como um tipo peculiar de Tango, aquele que não se dança. Eu particularmente, gosto muito de Horácio Ferrer.

Não faltam exemplos, no entanto, do oposto. Músicas maravilhosas para as quais jamais foi escrita uma letra. Interpretações unicamente instrumentais também são as mais difundidas mundialmente. Aqui no Brasil, dançar um Tango com letra parece ser algo “estranho”.

|curiosidade| Desconhecer que existem letras nos tangos parece ser condição sine qua non para ser professor de Dança de Salão. Se você quiser virar um professor de Dança de Salão que ensina “tango” – letras minúsculas e com aspas – lembre-se de que você só deve conhecer alguns nomes de música, e deve renomear as músicas que já estiveram em algum filme, como por exemplo, Por una cabeza, que em “dançadesalãonês” vira Perfume de Mulher. |/curiosidade|

Aí vem a parte chata: dizer que não consigo – ainda – explicar “o que é” Tango.

Posso no máximo dizer o que me parece:

É um movimento cultural intenso que reúne diversas artes – não apenas música, poesia e dança; mas também pinturas, desenhos – cuja origem permanece na peleja entre historiadores.

Posso dizer quanto à dança, que ela DEPENDE DA MÚSICA. Como qualque outra dança.

Não há “Tango Danza” sem o “Tango Musica”. Não existe “Tango Nuevo” sem “Tango Viejo”. Não existe conhecimento mínimo da dança sem o conhecimento mínimo da música e sua história. Não se deve conceber a idéia de “aprender a dançar Tango” sem “aprender Tango”.

É o que acredito. É o que defendo.

Pobre Duda…

 

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