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Archive for abril \25\+00:00 2016

“Arte” e os tempos de reprodutibilidade técnica

(aspas propositais – pra quem não tem muita paciência com preâmbulos, pule pra “enfim… comecemos” e seja feliz)

Muitos dizem que quando vou discutir arte – de maneira geral – ou obras artísticas (e, em geral essa discussão envolve a dança, pois é o ambiente do qual sou mais próximo, mas o pensamento que segue adapta-se a basicamente toda expressão artístico-cultural) ,  alguns dizem que sou “chato”, quando usam palavras amenas. Normalmente dizem que MINHA visão sobre arte é muito “dura”, exigente…. mas de onde tiraram que euzinho tenho capacidade ou tempo de vida o suficiente para ter uma visão MINHA sobre arte? Tudo que enxergo (artisticamente falando) passa por diversas lentes conceituais e culturais antes de serem processadas por esse cérebro elétrico que ABBA me deu.

Esse textinho (que acabou não sendo “inho”) não vai abordar cada uma dessas lentes, visto que seria humanamente impossível… Não sou Barry Allen, nem Wally West. Mas o título já dá uma idéia de que escolhi dar um toque sobre uma visão pós-marxista (embora esse vocábulo extremamente acadêmico me cause engasgos, não tem como fugir dele para situar-mo-nos – com direito a mesóclise e tudo – corretamente na discussão).

Walter Benjamin nasceu em 1892 (99 anos, 2 meses e 14 dias antes de mim), e era MUITO mais chato que eu. Filósofo, adepto da teoria crítica, e membro da Escola de Frankfurt,  esse senhor alemão publicou, em 1955, um texto sobre crítica artística que até os dias de hoje é devorado por nas faculdades de artes (dança, teatro, belas artes, etc). É um dos meus textos preferidos (embora minha paixão seja uma insipiente e deformada “filosofia do corpo”), e pode ser acessado NESSE LINK AQUI.

Não vou perder muito tempo me debruçando sobre a questão do materialismo ou sobre a aplicação dos conceitos de superestrutura, infra-estrutura e mais-valia ao mundo artístico (não porque não possa ser feito… mas porque me daria mais trabalho do que prazer); passados esses conceitos “chatos”, vamos ao tema central, que é a existência de uma Indústria Cultural com fins “fascistóides” que tentam (com certo sucesso)  criar um ambiente artístico que tende à uma espécie de “barbárie teleguiada”.

Também não vou parar para explicar o que é “Industria Cultural” pra ninguém… vão estudar… Não costumo dizer muito isso mas, nesse caso específico, a Wikipedia é bom pra começar… olha ESTE LINK AQUI. Meu trabalho de especialização teve esse tema no embasamento teórico, e pode ser acessado através DESSE LINK AQUI.

Enfim… comecemos:

Recentemente, em conversas casuais, o tema de coreografias “top”, “midiáticas”, acabou surgindo, e com elas, obviamente, inúmeras divergências, preconceitos (no sentido de conceitos pré-estabelecidos), e convencimentos empíricos foram tomando conta. Nas várias ocasiões recentes em que o assunto apareceu, eu segurei minhas palavras, pois tenho aprendido (aos poucos) que sinceridade e embasamento pode ser facilmente confundido com “despeito” ou com “grosseria”. Mas diante de certas coisas apresentadas pela Bahia e pelo Brasil afora (e aqui o vocábulo “coisa” substitui o vocábulo “coreografia” por uma questão conceitual própria),  imagino ser de bom alvitre me expressar de forma mais “dura” sobre o assunto.

Não vamos confundir isso aqui com uma discussão sobre “validade” artística (ou seja, classificar algo boolianamente enquanto “arte” ou “não-arte”). Tanto porque isso pode descambar pro conceito abjeto de “arte degenerada” criada por um certo pintor frustrado alemão (o que levou à morte milhares de artistas judeus e não-judeus por “conduta subversiva”), quanto ao fato de que isso é um assunto pra peixe grande… e eu sou uma mera piaba num tanque de tubarões.

Pretendo algo, por incrível que pareça, muito mais simples e POR ISSO MESMO ainda mais polêmico: Denunciar que existem trabalhos artísticos eivados de uma profunda MÁ FÉ.

Benjamin chamou a atenção para os perigos da reprodução desenfreada de obras artísticas, representados, à época, pelo gramofone e “releituras” de famosos trabalhos artísticos em impressos modernos (quem pulou o preâmbulo, eis uma chance de mudar de idéia). Ele acreditava que a distância física entre artista (ou a sua obra) e o público fomentava de proliferação de interlocutores descomprometidos com a virtude original, contaminando a arte com ideais de padronização e venda, como qualquer outra indústria. Muitos leitores desavisados de obras da Escola de Frankfurt (segunda chance de quem pulou o preâmbulo pra mudar de idéia), tendem a rotulá-los de “críticos do progresso”, erroneamente atribuindo como alvo de suas críticas as tecnologias de reprodução, quando, na verdade, as críticas eram dirigidas ao interesse capitalista de estado (fascista) por detrás da ideologia da época (igualmente fascista).

Obviamente, não estamos em 1955… os tempos são outros, as tecnologias são outras e a conjuntura sócio-antropológica em que vivemos nos permite dizer que muito do que foi elaborado como “crítica estética” da Escola de Frankfurt precisa ser revisto. Mas uma coisa continua igual: O PERIGO DA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA RETIRAR A ALMA DA ARTE, transformando-a em algo vazio de conteúdo e recheada de interesses comerciais. A maneira mais fácil de tornar uma manifestação artístico-cultural em algo assim é pegar algo proveniente da própria cultura “alvo”, retirar-lhe “cirurgicamente” o conteúdo original (invariavelmente ligado à resistências de minorias ou evocações próprias da cultura local) e recheá-las de padrões vazios e de interesse midiático e completamente questionáveis.

É muito fácil perceber e críticas esse comportamento nefasto em obras artísticas estáticas: esculturas, pinturas, grafite, trabalhos gráficos de maneira geral, Livros, poesias, música (essas duas últimas, em sua composição, e não em sua interpretação, quando, em verdade, não são estáticas).

No entanto, quando as artes são efêmeras, dependentes de interpretações pontuais, a análise crítica é muito difícil de se realizar sem a ajuda de um arquivamento tecnológico da obra (vídeos, áudios, fotografias, etc). A dança enquadra-se nesses casos.

No caso específico das coreografias “top”, “midiáticas” e outros adjetivos torpes do mundo hodierno, tratamos aqui de grupos que rodam o estado, o país e o mundo realizando movimentos calistênicos em grupos de 8 tempos em músicas de ampla aceitação popular. Um ou ou outro grupo tem canal no youtube, onde “viralizam” (neologismo de perfeita aplicação prática) suas colagens composições coregráficas, de preferência aquelas de mais fácil REPRODUTIBILIADE. Outros grupos configuram-se em verdadeiras empresas, cujo produto comercializado podem ser conceitos enlatados de saúde, beleza e felicidade, representados pelo vocábulo americano “fitness” (que, curiosamente, surgiu de uma forma muito mais honesta, da junção da palavra FIT  e BUSINESS, que significam, respetivamente “enquadrar” ou “fazer caber”; e “negócio” ou “comércio”); ou ainda um esteriótipo corporal ou comportamental que possa facilmente ser reproduzido e uniformizado.

Basicamente, sem papas na língua (ou nos dedos, no caso) em palavras bem simples: SE hoje eu quero dar aula de algo que dos anos 80 aos 90 foi chamado de “ginástica” e bombava nas academias brasileiras, ao som das músicas “eletrizantes” da época, eu posso escolher o caminho LEGAL e  me formar em Educação Física e me filiar ao sistema CONFEF/CREF (e nem vou entrar na questão política, porque tenho opiniões igualmente polêmicas à legislação de uma página e seis artigos que “regulamenta” a Educação Física Brasileira)… ou fingir que “é arte, é dança, não tem nada a ver com fitness, apesar de ter fit  ou mesmo fitness no nome” e se eximir de cumprir a lei dando o popular “jeitinho brasileiro” e gerando milhares de apelidos e disfarces para o que, em verdade, é GINÁSTICA CALISTÊNICA REPAGINADA COM MÚSICAS DA MODA. (Mas vamos dizer que é “dança” pro CREF não encher o saco, né)

Aqui nos deparamos com duas formas diferentes de “má fé”.

(1) A do senso comum, pela qual o indivíduo ou um grupo de indivíduos se vale do desconhecimento de causa de um determinado grupo (em geral um séquito grandioso) para ganhar algum tipo de benesse (dinheiro, “likes”, curtidas, propaganda, “clicks”, ego inflado, etc);

(2) A “heiddegeriana”, erroneamente confundida com o “auto-engano”, em que um indivíduo ou grupo de indivíduos FINGE (sem sucesso) PARA SI MESMO a identidade ou estado de um determinado elemento pessoal (no caso, uma pseudo-profundidade artística de algo virtualmente tão raso quanto um pires), mas com a plena consciência desse fingimento para si próprio.

Nada do que estou escrevendo acima é realmente “novo”. Não são coisas que estão acontecendo APENAS agora, no mundo hodierno, com as novas tecnologias e bla bla bla bla (adicione aqui a verborragia acadêmica de sua preferência). NÃO.

O que estou escrevendo hoje se aplica a todo e qualquer sistema de venda de movimentos repetidos de oito tempos que começou na década de 80 e se replica ATÉ OS DIAS DE HOJE.

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Separadamente, os movimentos que ordenados em conjuntos hoje se apelidam de “zumba”, “fit dance”,  e um monte de outras baboseiras  nomenclaturas, já existem há ERAS. Não precisa acreditar em mim… existe youtube… é só pesquisar algumas palavras-chave pra perceber que, assim como no ambiente universitário, a linha que separa “influência” de “plágio” é mais tênue do que um fio de cabelo.

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(É agora que eu digo que “axé music”  e “arrocha” já existiam no resto da latino-américa e se chamavam, respectivamente “merengue” e “bachata” e um monte de gente vai querer me jogar “préda” na rua)

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