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Sobre ensinar e sobre dança

agosto 18, 2018 1 comentário

Hoje eu estou muito mais envolvido com o mundo do ballet e com gestão em dança, do que especificamente com o mundo das danças de salão ou da Educação Física. Mas isso não quer dizer que parei de estudar isso. Eu nunca paro.

Pensei MUITO antes de escrever isso, se eu deveria ou não… por fim, vou arriscar um “textão”, pois já vi mais de um vídeo de mais de uma pessoa, falando coisas como “O trabalho do professor de dança não é dança, mas a transformação através da dança” ou que “Você não trabalha com ballet, mas com a imaginação, com o encantado, com a fantasia”; e hoje, em específico, achei MAIS um vídeo, dessa vez voltado para as danças em salão, e bateu um friozinho no estômago que normalmente não sinto quando se fala do ballet.

CONCORDO inteiramente com a necessidade de adquirir conhecimentos, diversos à técnica de dança, que são necessários ao trato com o aluno num aspecto mais humanizado. Tanto é assim, que  todos os treinamentos de métodos de dança clássica, e cursos técnicos, e licenciaturas, tem em sua estrutura curricular elementos voltados à psicologia, filosofia, etc. sempre ligados ao campo do ensino da dança.

É necessário que o professor de dança (não só de dança de salão, mas de qualquer dança, na verdade professor de qualquer coisa) tenha a noção de que os seus alunos não são “copos vazios” esperando você derramar seu conhecimento. Que eles vêm com uma bagagem educacional, emocional, social, psicológica, etc; que o professor tem a responsabilidade de estar trabalhando com vidas, de perceber indícios de problemas sociais, ou até psicológicos, e abordar esses indícios de forma profissional, de forma a amenizar possíveis entraves no aprendizado. E concordo que isso tem um impacto positivo na vida do aluno.

Não concordo, entretanto, com transferência do “cerne do labor”, ou seja, do foco do trabalho do professor de dança. Para mim, o professor de Dança trabalha com dança E com pessoas. Ele ensina pessoas a dançar. Ele não é psicólogo, sociólogo, terapeuta (pode até ser, em formação, mas não naquele momento). Ele é professor. Ele trabalha com o ato de ENSINAR um objeto de estudo em específico. O trabalho do professor NÃO É transformar vidas através da dança de salão. O Trabalho do professor (de qualquer coisa) é ENSINAR e, através deste ensinamento, dar condições para que o aluno se transforme, transforme a sua vida… através da dança, da pintura, do teatro, do tricô, da culinária, da física, da matemática, da literatura, da filosofia.

O trabalho do professor (de qualquer coisa) não é transformar ninguém, mas dar o PODER DE TRANSFORMAR-SE através do que se ensina.

NO ENTANTO… Se estamos falando de MARKETING, ou de propaganda, aí, sim, talvez eu concorde com a idéia de que o “professor de dança não trabalha com dança, e sim com gente”. Porque o cliente não está interessado no produto, mas sim no efeito, na reação, na transformação que o produto é capaz de provocar no cliente. E, nesse sentido, o professor inteligente não vai “vender” a técnica, o passo, o cambret, o pliè… ele vai vender conceitos imateriais (socialização, sonho, diversão, descontração, interação, blá blá blá…).

Mas marketing é marketing. A função do marketing é vender. Lotar agenda, lotar aula, aumentar demanda, etc. Não deixemos o marketing invadir o espaço do conteúdo. Se o conteúdo for ruim, não tem marketing que salve. O aluno vai amar até um determinado momento, mas vai pro próximo professor que oferecer “mais socialização, mais interatividade, mais emoção, mais dancinhas da moda”… às vezes até muda de atividade pra conseguir esses mesmos produtos intangíveis.

Noutro giro, corre-se o risco de adentrar outras áreas de atuação que não são, nem de longe, função do professor de dança (de qualquer dança), bem como fomentar a prática do “professor de ocasião”…. Aquele cara que fez umas aulas e acordou decidido a “ser professor de dança”. Não por amor à dança nem ao ato de ensinar… mas porque na mente dele, ele tem os pré-requisitos para fazer sucesso na área, a coisa do “líder” ou do “influencer”… E ele consegue, se ele tem o conhecimento tecnológico pra fazer isso acontecer. Ele cria uns perfis nas redes sociais, coloca os conteúdos corretos, trabalha o marketing dele corretamente e LOTA qualquer turma que ele montar. Vendendo felicidade, saúde, interação social, etc, etc, etc… e não a dança.

Já escrevi há uns anos atrás, numa matéria publicada pelo Jornal Falando de Dança (da época do finado ORKUT, do grupo Dança de Salão Bahia) que o grande problema das danças de salão, naquela época, era a mentira: O professor de tango que nunca fez tango na vida, o professor que diz que fez aula com Jimmy, mas que só tirou foto com ele no elevador uma vez; o cara que diz que é formado no método de Jaime Arôxa, mas na verdade só comprou o DVD dele na banca de jornal. Hoje, fora da dança de salão, já encontrei aquela professora de ballet dizendo que aplica o método da Royal Academy of Dance, mas só fez aula pelo método quando tinha cinco ou seis anos, quanto mais ser registrada; ou aquele professor que diz que dá aula de sapateado, mas só faz repetir os movimentos que viu em um ou outro filme, batendo o pé no chão sem nenhuma técnica… e até mesmo gente que faz um trabalho maravilhoso, mas, cooptado pelo “mercado” também cai na prática das mentiras pontuais (que fez curso disso e daquilo e daquilo outro, quando, na verdade, não fez, por exemplo).

No tocante à dança de salão, identifiquei (naquela matéria do Falando e Dança) o padrão de mentira através, justamente, do excesso de marketing. É aquele cara que dá aula de “Forró (pé de serra, rodado, cabrueira, de gafieira, estilizado, lambadeado, melado, pulado, retado e o novíssimo forró-lambazouk-love-arrochado) Salsa (on 1, on2, on3 e quadradinho de 8), Zouk, Tango, Bolero, Samba, Fox-trote, lambada-love, bachata-com-açúcar, Arrocha, Arrocha-universitário-com-pós-graduação-em-rebolada, Kizomba, Kizumba, Zumba, e também é mestre zen, zin, zoin”.

Note que não estou falando da ESCOLA que oferece tudo isso com vários professores diferentes… mas do INDIVÍDUO que é o “mestre de todas as danças do mundo”, aos 20, 30, 40 anos de idade com , 10, 15, 20 anos de carreira como dançarino e professor.

Hoje não mudou muita coisa. Só que as mentiras ficaram mais elaboradas. Alguns daqueles primeiros mentirosos fizeram sucesso, montaram escolas, e dão workshops com certficado, vendendo “saúde, socialização, bem-estar, emoção, felicidade, criatividade” e mentiras que se tornaram “verdade” (aspas propositais).

O que quero dizer, por fim… é que CONCORDO que “trabalhamos com gente” …TAMBÉM…

Mas não devemos esquecer que o nosso trabalho é a DANÇA sim. TEM QUE SER a dança, ou a arte vai ser sempre assim… “mera ferramenta” que pode ser trocada por outra ferramenta qualquer que faça o mesmo “serviço”.

Turma cheia sempre, claro… mas de preferência, sem muita rotatividade.  Novos alunos, claro… de preferência mantendo os antigos e, COM CERTEZA, mantendo a fidelidade com o objeto de estudo/ensino.

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