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Archive for abril \24\+00:00 2019

“You can edit a bad book. But not a blank page”

“Você pode editar um livro ruim. Mas não uma página em branco”
 
(senta que lá vem história)
 
Há poucos meses atrás eu estava afundando em procrastinação. Usando todos os problemas possíveis para justificar não terminar algo que eu já tava fazendo há oito anos. “Não estou com tempo. Tem coisas mais importantes. Tenho que focar em resolver o problema A ou B, não dá pra escrever agora. Hoje não estou bem pra escrever, quem sabe amanhã. Só mais uma partida, aí eu paro pra escrever. Ah, meu passaporte. Ah, meu mestrado. Ah, meu visto. Ah, o trabalho”.
 
O curioso é que tempos atrás eu tinha dado um conselho a um conhecido: “Se você escrever uma página por dia, ao final de um ano, você terá um livro de 365 páginas para revisar, mas se você escrever uma página por ano, não vai ter nada”.
 
Porque era tão difícil assim seguir meu próprio conselho?
 
Te digo o motivo: escrever (a parte prática: sentar a bunda na cadeira na frente de um caderno ou computador e verter palavras) é essencialmente e irremediavelmente solitária. E quando você está só, você pode ser o seu melhor amigo ou o seu pior inimigo; e você não consegue controlar qual dos dois você vai ser a cada dia, a cada momento.
 
A resolução para o problema é que TODO o processo que envolve a escrita em si (o procedimento solitário), não precisa ser solitário. E isso ajuda com que você seja mais seu amigo do que seu inimigo nos momentos em que você estiver sozinho.
 
Se até Stephen King teve Tabby para resgatar “Carrie” da lixeira e obrigar ele a terminar de escrever; não sou eu, mero mortal, que vou me atrever a ser diferente. Eu precisava de ajuda, apoio, suporte. Alguém que me tirasse da lixeira.
 
Isso pode vir de diferente formas para muitas pessoas. Para mim, o que começou a resolver foi eleger a dedo alguns poucos colegas, além de minha esposa (sempre companheira) como “beta readers” e pedir a opinião sincera deles. O segundo passo foi não me abater com as críticas e refazer o que precisava ser refeito. A terceira parte foi a mais difícil, e ninguém podia me ajudar: terminar de escrever.
 
A última história estava “travada” e eu precisava de pelo menos mais um conto para fechar uma quantidade razoável de páginas que justificasse a empreitada de uma publicação física.
 
Foi aí que numa destas “procrastinações produtivas” (sim… isso existe) eu comecei a acompanhar vários grupos de autores no facebook, em modo furtivo durante algum tempo. Foi no grupo “Papo de Autor” (que é do site Papo de Autor, google it) que soube de uma Live semanal onde um trio de jovens autores (Wesnen Tellurian, Karen Soarele e Vinícuis Ferreira Mendes) estava fazendo um concurso de contos. E eu estava escrevendo um livro de contos. Fiquei todo animado, mas aí eu percebi que o concurso já tinha encerrado, e além do mais a temática dos meus contos não se enquadraria no gênero. Eu ia parar de assistir, mas tava sem fazer nada mesmo, continuei. Foi quando eu parei de prestar atenção no tal concurso que já tinha acabado, é que eu me toquei que eles estavam estabelecendo metas semanais de quantidade de palavras escritas e fiscalizando uns aos outros.
 
Genial! Porque eu não pensei nisso antes? Que burro que eu sou!
 
Passei a estabelecer metas para mim mesmo… para mim mesmo… ou seja só consegui provar a minha burrice.
 
Não adiantou nada, porque eu não estava conseguindo cumprir as metas que eu mesmo estabelecia, pois eu tava sempre arrumando desculpas para não ter cumprido a meta. Resolvi desativar o modo “stealth” e comecei a participar mais ativamente do grupo (e de outros grupos também); e, em determinado momento, eu resolvi colocar na tabelinha da live, publicamente, as minhas metas semanais. E era só essa pressão externa que faltava. Separei a última história para dar seguimento depois. Comecei outro conto do zero. Eu precisava de mais ou menos 2500 palavras para terminar meu livro.
 
E foi assim que, depois de 8 anos (deixa eu chamar atenção para isso: OITO ANOS!) escrevendo meu primeiro livro, eu finalmente consegui terminar de escrever: Com ajuda de minha esposa, de meus colegas de trabalho e, no fim, de gente que eu nunca tinha visto na vida.
 
(nossa… esse texto tá parecendo aquelas palestras de vendedor de produtos inúteis. Mas você já leu até aqui. Termina aí, vai).
 
Claro que não acabou ainda. Mas tá tudo encaminhado. Um amigo querido está escrevendo o prefácio. Uma revisora profissional já revisou. Um Capista profissional já está fazendo a capa. Espero daqui há uns dias estar aqui divulgando o meu PRIMEIRO LIVRO, que será publicado de forma independente pela Amazon, tanto no formado e-book quanto físico com capa comum. E eu estou ansioso como uma criança. Segurando a euforia.
 
Esse é um texto de agradecimento prévio a todo mundo que me ajudou a chegar até aqui, porque depois do livro publicado eu vou ser mais econômico nos agradecimentos e focar no marketing de vendas.
 
Então… obrigado a todos que me ajudaram a chegar até aqui.
 
🙂
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Esquisito

– Duda, você é muito equisito, cara…
– Eu não.
– É sim.
– Por que você tá dizendo isso?
– Você não sabe responde nada direito. Fica dando volta ou então responde umas coisa nada a ver.
– Mas como assim? eu sou plenamente capaz de responder coisas diretamente.
– Quer apostar?
– Aí vai depender… se isso for um uso corriqueiro do vocábulo, no qual você apenas quer provar seu ponto de vista em detrimento do meu, sim… Mas eu não quero literalmente apostar dinheiro ou …
– Viu? aí!
– Não, péra. Não tava valendo. Agora vai.
– Tá… deixa eu ver… olha lá, hein.. é pra responder sem argumentar. Nem pode responder com pergunta.
– Sem perguntas e sem argumentos?
– Qual é sua banda favorita?
– AM
– Que?
– Mas eu quase não ouço rádio.
– Não…
– É sim… antigamente eu até parava para ouvir a voz do Brasil, mas…
– Não é esse tipo de ban… Voz do Brasil? sério? ninguém ouve…
– Bom… eu tenho certeza que eu sou alguém.
– Música!
– Como un niño en la calle.
– que?
– Minha música preferida… na verdade é a primeira música que eu gosto que me veio à cabeça. Mas se eu parar pra pensar muito eu acabo fazendo uma lista separada por categorias.
– GRUPO DE MÚSICA!
– Na verdade, provavelmente eu iria categorizar por estilo.
– Ô meu Deus do céu. Qual seu grupo de música favorito?
– Haaa… você não especificou. Eu gosto de Pentatonix.
– Quem?
– PTX. São do Texas.
– E eles tocam o que?
– Nada.
– Mas… Deixa pra lá. Qual é sua comida preferida?
– cuscuz.
– Qual sua frase preferida?
– “Tem cuscuz”.
– Tá… isso não é assim tão esquisito. Só um pouco. Não era o que eu queria dizer com “frase favorita”, mas tá valendo…
– Não te disse? eu sou perfeitamente normal.
– E o Café?
– Quero!
– Não…
– Então por que ofereceu?
– Eu quero saber como você gosta do café!
– Muito.
– Tá. Eu vou fazer um café pra gente daqui a pouco.
– Oba!
– Já vi que eu tenho que elaborar a pergunta toda. Então lá vai: Qual é a sua cor preferida?
– Golgari.
– É o quê?
– Desculpe… eu tava pensando no café. Qual é mesmo a pergunta?
– Sua cor favorita…
– Ha tá. Me enganei.
– E qual é?
– Izzet.
– É o quê, Duda? isso é cor de que, rapaz?
– É a cor que tem uma tempestade de raios, quando ela dura mil anos.
– Desisto!
– Mas e o café?
– Se vira aí.
– Mas  pra qual lado?
–  %$#^%*^$&#

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Uma nova era da reprodutibilidade técnica

(Este não é um texto sobre coaching… Sério…)
Vivemos na época do “coaching”. A palavra inglesa significa “treinamento” e durante algum tempo fora utilizada com muita coerência em sua área natal, o esporte. Originalmente, um coach é alguém com profundo conhecimento técnico sobre um determinado conjunto de… Bem… Técnicas.
 Essa pessoa geralmente atuava como uma mistura de incentivador e professor para que um indivíduo ou grupo de indivíduos alcançassem um determinado objetivo.a Obviamente os tipos de coachs mais “conhecidos” eram os de futebol americano, atletismo, ginástica e outras atividades físicas, sejam desportivas ou não. Em português  sempre tivemos “coachs”… Só que sempre chamamos de treinadores. Alguns treinadores tinham formação superior e eram professores. Outros não… Mas eram (e são) chamados de professor por deferência. Por deferência, até vidente de bola de cristal era chamado de professor.
Não vou entrar aqui na questão do novo uso da palavra “coach” e nem vou perder tempo tecendo críticas que demandariam de mim uma argumentação extensa e fundamentada. Todo esse texto foi pra chegar no ponto principal e dizer que, antes dos coachs no Brasil, existiram os “professores” (com aspas).
E antes de existirem “cursos on line” existiram os cursos por correspondência, televisivos, e até  consultas por telefone (ligue djá).
O formato do curso, consulta ou assessoria (presencial ou não) não o cobre de mérito ou demérito. O que vai definir se um curso, assessoria ou consulta tem eficácia é a EFETIVIDADE, ou seja, o quanto esse curso, assessoria ou consulta produz resultado.
Obviamente cursos, assessorias e consultas com menor controle ético tendem a não gerar resultados ou mesmo geram falsos e ilusórios resultados (o que é pior que resultado nenhum).
Cursos à distância com grande controle ético geralmente possuem também um controle real da qualidade de resultados, através de avaliações idôneas e regulares.
Mas a maioria doa cursos on line (bons e ruins) não tem controle ético e nem de qualidade dos resultados.
Você pode concluir o melhor curso on line de desenho…. Sem saber desenhar. Sem que haja um controle ético e de qualidade de resultado, aquele certificado que você pode empurrar no meio dos outros que você tem, apesar de não ser falso, declara que você participou de um curso on line de desenho, e não que seus conhecimentos foram avaliados… E também não atesta que você sabe desenhar. Muito menos que você pode ensinar a desenhar.
Mas olha só que polêmico isso que vou dizer agora:
Aquele “curso presencial” que você participou naquele evento de desenho com vários desenhistas e roteiristas famosos também não atesta que você sabe desenhar. Muito menos ensinar a desenhar. Não importa o quão famosos sejam os desenhistas e roteiristas. Neste ponto, eles são exatamente iguais a qualquer curso on line.
Novamente. Isso não quer dizer que não sejam cursos bons. Apenas que a qualidade do curso depende da qualidade do professor…. E não se ele foi oferecido de forma presencial ou não.
O que faz um certificado ter validade FORMATIVA é a existência de uma avaliação idônea dos conteúdos que foram passados… E não a fama ou qualidade do professor.
E adivinha! Mesmo que o curso que você fez tenha uma avaliação idôena e que seu certificado tenha esta validade extra… isso não quer dizer que tenha sido um curso bom.
(Neste texto, você pode substituir desenho por dança, escrita, canto, instrumento, esporte, direção defensiva, arte marcial, artesanato de miçangas… e basicamente qualquer coisa que possa ser ensinada e aprendida)
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A banalidade de ser aluno.

É clichê nos textões de internet, mas peço licença para um desabafo. Bem… Não é um desabafo, na verdade, mas uma história pessoal com a finalidade de pontuar algo importante acerca comportamentos que observo em pessoas integrantes do mundo dança (não exatamente da dança de salão, pois os últimos episódios deste comportamento nocivo eu observei acontecer com uma frequência absurda no ballet clássico). É uma história formada de vários pedaços, mas vou tentar contá-la da forma menos enfadonha possível. Para isso, vou suprir as lacunas da minha memória com o que acho que aconteceu. Se você faz parte do mundo da dança como dançarino, professor, empresário ou mesmo apoiador, peço por favor que termine de ler, apesar do tamanho.

(parte 01)
Não lembro a data exata, ou mesmo sei precisar o mês. Hoje eu me confundo até mesmo qual foi o ano. Eu apenas sei dizer que foi entre 2002 e 2004, quando o Júnior de Jesus e eu estávamos conversando sentados em um banco de ferro e madeira que existia na entrada da EBADS (Escola Baiana de Danças de salão), que funcionava onde hoje é uma enorme franquia da Drogasil. Não lembro exatamente qual era o assunto… mas provavelmente era algo engraçado, pois lembro que estávamos rindo quando uma senhora que não era jovem nem velha, mas se vestia como uma adolescente extravagante, chegou sorridente e perguntou a respeito das aulas de dança de salão. O recepcionista era uma pessoa extremamente agradável e respondeu com toda educação do mundo sobre custos, horários, preços. O Júnior, na época não era sócio da empresa, mas apenas um professor prestador de serviço, como eu.

Quando a conversa que acontecia na recepção saiu do âmbito monetário (pedidos de desconto, bolsa parcial, etc) e entrou em questões mais técnicas (qual era o método, porque na verdade ela queria era fazer aula sem pagar, pela troca de experiências, etc), imediatamente a nossa conversa paralela sobre assuntos aleatórios estancou. E acho que a moça-senhora percebeu, e virou-se para nós (bem… para o Júnior, porque ele tinha um ar de autoridade que eu acho que eu não tinha na época) e dise em alto e bom tom:

– É que eu já tenho experiência.

A força que fiz, na época, para não revirar os olhos foi tamanha que acho que tenho dores nas pálpebras até hoje.

– Eu já fiz aula de x, y, z… e já fui aluna de fulana famosa, beltrana pocadona, cicrana internacional e zé-ninguém-da-esquina-lá-de-casa.

A essa altura, eu estava com o rosto vermelho, e Júnior com uma expressão séria de quem está ouvindo com toda atenção do mundo.

– Aí eu queria fazer umas aulas, por um mês ou dois, para já começar a dar aula.

E ela falou isso na maior cara-dura se aproximando de Júnior com um jeito bastante “insinuativo”. Eu não resisti e comecei a rir, levantei do banco e fui até a recepção olhar qualquer coisa que não tinha importância, para não ter que ficar ouvindo aquela patacoada.

Júnior, para quem não conhece, é a personificação de uma certa “comédia blasé” que nem o Garfield seria páreo. Ele se levantou, colocou os braços em volta do ombro da moça-senhora e disse:

– Entendo. Olha, aqui na EBADS, receio que não vai ser possível. Aqui a direção é muito fechada a esse tipo de abordagem. Mas eu vou lhe indicar um local onde você pode conseguir, mais ou menos, o que quer. Veja…

Virou a moça-senhora em direção à porta e apontou em direção à Praça Padre Ovídio. Neste ponto eu já estava prendendo as gargalhadas com os lábios cerrados entre os dentes, escondido atrás do balcão da recepção.

– Seguindo aqui, a senhora vai ver os fundos da igreja. A Senhora dá a volta, entra, ajoelha e pede um milagre, porque aqui a gente só ensina dança.

(parte 02)
Novamente eu não lembro data, mês ou mesmo o ano. Mas sei que eu era o único professor específico de Tango argentino da EBADS e acho que o Júnior agora era um dos sócios proprietários da escola… ou tava perto de ser. Foi minha turma preferida. Guardo até hoje uma plaquinha que me deram de lembrança. Guardo todos os meus ex-alunos e ex-alunas no meu coração. Menos um.

Como eu não sou maluco de colocar nomes aqui, vamos atribuir um apelido pro senhor-rapaz, que seja um nome próprio, assim eu me lembro de colocar a letra maiúscula… um estado brasileiro qualquer… digamos que o nome dele era… GOIÁS.

Então… Goiás era uma pessoa difícil de lidar quando você é um professor jovem (eu era um professor jovem, pois comecei a dançar bem cedo). Ele era um senhor não muito velho, mas que nitidamente não aceitava o fato de estar envelhecendo. Era uma figura conhecida na noite feirense, pois dançava do jeito dele, com as parceiras dele, numa espécie de código secreto que só eles entendiam. E eu ensinava Tango com T maiúsculo. Nunca fiz de conta que sabia coisas que não sabia, nunca inventei elementos ou processos pedagógicos que não existiam.

O Ensino de Tango (isso é necessário para o desenrolar da história, perdoem a divagação momentânea) começa com o aprendizado da caminhada. Sem aprender a colocar corretamente o peso, a mudar o peso e a caminhar para frente, para trás e para os lados da forma correta, é impossível passar para as sequências iniciais. Então, SIM… o início do aprendizado correto do Tango é um pouco chato e eu sempre tentei fazer da forma mais prazerosa possível (como uma avó cuidadosa que coloca açúcar e mel no chá amargo para amenizar o gosto ruim). Goiás com regularidade dizia que eu estava enrolando e que eu não sabia ensinar. Quando eu finalmente passei paras as sequências inicias (baldosa, ocho simples, etc) Goiás era o ÚNICO aluno que não conseguia fazer nada minimamente bem. Nem uma caminhada simples.

Goiás era o típico aluno problema que todo professor de qualquer área conhece. Ele soltava muxoxos, dizia que não estava pagando para ficar andando pela sala, agarrava as damas da sala (contra a vontade) e tentava dançar com elas no meio dos exercícios. No final da segunda semana de aula, as reclamações (minhas, das alunas e dos outros alunos) se amontoaram na direção que convidou Goiás a se retirar da escola, rescindiu o contrato e até devolveu o dinheiro – o que na minha opinião era errado; afinal, ele “fez” as aulas e atrapalhou o aprendizado de todo mundo. Não soube mais dele por um bom tempo.
(Parte 03 – calma… vai valer a pena…)
Eu já não era mais professor da EBADS, por inúmeros motivos: Eu tinha passado num concurso público, mas não tinha sido chamado; eu estava me dedicando à universidade de forma muito mais intensa; outras coisas de ordem pessoal também influenciaram. Enfim. O que importa é que eu estava dando aulas em uma academia de ginástica da cidade, e tinha um grupo de alunos que fazia aula comigo num Dojo de Karate que me foi emprestado aos sábados. Nesta época eu me tornei um “professor undeground” que cobrava barato ou quase nada quando dava aulas no Dojo emprestado (nem dá pra chamar exatamente de aulas… a gente se reunia para dançar e eu passava umas sequências). Eu nem sabia quanto a academia de ginástica cobrava pelas aulas de Dança de Salão que eu dava, mas sei que era muito mais do que era repassado pra mim. Meu nome ainda era a referência de Tango da cidade… mas eu não dava aula em lugar nenhum. Foi uma “Dark Fase” em que eu me dei conta de que tinha me dedicado demais a muitas coisas diferentes, e nunca avancei realmente em nenhuma delas, e aquilo estava me comendo vagarosamente por dentro. Eu ainda estava tentando me decidir sobre o que eu queria MESMO fazer da vida, e fiz muitas escolhas ruins naquele período, mas que me levaram até a oportunidade de fazer a melhor escolha da minha vida. Mas essa história não é sobre mim. Eu estava imerso na faculdade (que já estava demorando muito mais do que devia), e a dança ficou em segundo plano (senão eu não ia me formar nunca).

Foi aí que aconteceu. Um conhecido da faculdade (não lembro quem era -desculpa- mas lembro que era um cara estudioso e que apesar de não dançar, entendia bastante de processos pedagógicos e qe eu respeitava muito) veio me dizer que eu precisava melhorar a forma de ensinar e que não esperava isso de mim, já que eu tinha uma certa fama como professor de Danças de Salão. Eu imediatamente disse:

– Mas eu não estou dando aulas já há algum tempo. Porque você está me dizendo isso?

– Porque um aluno seu está ensinando Tango naquela academia de ginástica que abriu agora. E está se falando muito mal dele. Quando perguntaram onde ele tinha aprendido Tango, ele disse que você foi o MESTRE dele.

E ele falou “mestre” com essa entonação “capslockiana” mesmo. A academia em questão não era grande. Ficava no centro da cidade, do lado de uma faculdade particular que, na época, ainda não tinha o curso de Educação Física.

Eu fiquei doente. Como assim aluno meu? Comecei a passar na mente todos os meus alunos que poderiam estar dando aula. Nenhum deles faria um trabalho ruim. Nenhum deles usaria a palavra “mestre” pra se referir a mim, porque eu não sou “essas coca-cola toda” e porque eu nunca fui o tipo de pessoa que prezava por esse tipo deferência.

Vocês já sabem quem era. Eu não vou ficar subestimando a inteligência de vocês; mas na época, eu tinha esquecido completamente que Goiás existia. Então, ele não me veio à cabeça. No relato a seguir, consideram que eu não sabia quem era.

Fui até a referida academia falar com o dono. Ele me disse que o senhor-rapaz tinha realmente se apresentado como meu aluno, que ele nunca tinha ouvido falar de mim, então ligou para outras pessoas que confirmaram que meu trabalho era de qualidade, mas que eu não estava mais ensinando Tango desde que saí da EBADS.

Como o referido senhor-rapaz disse que tinha feito aulas de tango comigo na EBADS, ele fez uma experiência, pois havia demanda para Tango (até hoje eu me pergunto onde essa demanda foi parar, que nunca vi). Mas após uma semana de aula o dono da academia o dispensou, porque ele era grosso, pedante e todos os alunos reclamavam que não aprendiam nada. Mas ele me disse que soube que referido senhor estava dando aulas na garagem de sua casa e que estava cheio de alunos, e tinha certeza que continuava usando meu nome como referência. Depois de algumas ligações, ele me deu um endereço. Coloquei minha melhor roupa não-social, o que na época era uma calça tactel e uma camisa do Diretório Acadêmico e obviamente fui até lá. Por um acaso do destino, cheguei justamente quando ele falava:

– Quando Duda, meu professor de tango, me ensinou isso, é porque na época, ele não sabia que…

Obviamente eu não lembro o que ele estava falando exatamente, e também não lembro se tinham 3 ou 2 pessoas ouvindo as besteiras que ele falava; tanto minha audição quanto minha visão estavam comprometidas pela raiva que se acumulava acima das sobrancelhas, fazendo-as franzir exageradamente. Lembro entretanto, que ele não estava dando aulas sozinho. Uma senhora-moça o estava ajudando. Parece que há anos atrás ela foi mesmo àquela igreja que Júnior indicou, pediu um milagre e foi atendida. Era professora e “tango” e dava aula com Goiás.

Tudo que consegui dizer foi:

– Você foi o pior aluno que eu já tive, e se fez 4 aulas inteiras foi muito. Você nunca foi minha aluna. Não fale meu nome de novo quando ensinar suas porcarias.

Virei as costas e saí sem saber qual foi a reação. Nunca mais ouvi falar de Goiás.
(Parte 04 – essa é mais rápida sério… fica aí… termina de ler, por favor)
Eu fiz aulas com um ‘sem número’ de professores. de Ballet, de Musical, de Jazz, de moderno, de Tango, Salsa, Bolero, de Samba… de uma quantidade considerável de estilos, métodos e filosofias diferentes.

Fiz aulas…efêmero. Passou.

Fui aluno de pouquíssimos professores. Quando vou citar os professores dos quais eu FUI aluno (e eu não vou fazer isso aqui, pois não é uma entrevista de emprego e nem um currículo) eu cito aqueles que se você perguntar por mim para eles, eles vão saber de quem se trata, e tenho certeza que vão falar a verdade e se lembrarão com carinho de mim, porque, modéstia a parte, eu sempre um BOM aluno quando o assunto me interessava.

Vocês nunca vão me ouvir dizer que fui aluno do Alexei Ramos, do Alex Amorim, do Éder Soares, do Marcos Cerqueira, do Jaime Arôxa, do Carlinhos de Jesus, do Jimmy de Oliveira, da Maísa Tempesta, do Juan Carlos Copez, do Jomar Mesquita, da Aurora Lúbiz, da Academia Mundial de Tango, da DNI Tango… Porque a maioria deles não vão se lembrar de mim, e os que se lembrarem (com certeza lembrarão com carinho), vão dizer que eu fiz algumas aulas avulsas em eventos. E isso não é ser aluno. Ser aluno não é fazer entre uma e quatro aulas e nunca mais ver a cara do professor.

Muito menos tirar foto nos corredores de evento sem nem nunca ter feito aula.

Sério, gente… pára de fazer isso. É muito feio.

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