Inicial > Uncategorized > Sobre a não-escrita

Sobre a não-escrita

Eu já não entro mais em tantas discussões na internet. Uma hora eu me livro do “tantas”
.
Enquanto isso não acontece, deixa eu falar sobre as últimas coisas que li em vários grupos e comunidades de escritores.
.
O que vou escrever a seguir é minha opinião como LEITOR, e não como escritor. Eu não tenho cacife pra analisar criticamente texto de seu ninguém. É só achismo.
.
A onda de pseudo-boemios brasileiros que citam Bukowski com a boca (e talvez a cabeça) cheia de vento me pega tanto pelo desconhecimento – momentâneo – que tenho do autor, quanto pela crença absurda que tenho de que o sujeito “citante” também não conhece o autor. Bukowski é só a ponta do iceberg. Me peguei pensando em autores que conheço (pela obra, eu digo), como Saramago, ou Atwood… e outros autores que figuram como “respostas rápidas” quando alguma crítica é tecida a um texto de alguém que, como eu, está desbravando mundo da escrita criativa.
.
Vou citar o exemplo da previsão de tempo, comum em grupos de discussão. Não é que vc não possa usar o tempo, a chuva, a janela, o sol, etc. pra começar teu texto. É que se vc tá fazendo isso só pra encher linguiça, e não porque isso tem algum sentido ou relevância no texto, o texto corre o risco se tornar chato de ler. E chato não é legal. Eu quando recebo uma crítica, busco compreender a origem da crítica, identificar o que ocasionou a crítica e analisar como essa crítica pode me ajudar a escrever melhor.
.
Mas sempre que vejo críticas sendo tecidas nos grupos, vira e mexe aparece aquela argumentação do exemplo notório. O que é isso? É quando o autor iniciante usa como justificativa para uma falha de seu texto, o estilo de um escritor já consagrado. Geralmente segue o seguinte modelo:
.
“Ah… Mas autor X faz isso”
.
O que fica deixado de lado é o recorte histórico do autor X. Fica esquecido que Autor X passou por críticas muito mais pesadas, quebrou a cara várias vezes na porta de editora, numa época em que escrever não era modinha. Às vezes o autor X passou frio e fome antes de ser reconhecido. Às vezes o reconhecimento só veio depois que o autor X morreu.
.
Vou usar dois exemplos que eu vi sendo usados como escudo em outros grupos e que acho que remontam o padrão acima.
.
“Ah, mas o Saramago, pontuação, liberdade estética, nhem, nhem, nhem…”
.
Eu não sinto falta da pontuação em ensaio sobre a cegueira. Saramago é um gênio. Se alguém sentiu falta de cada pontuação perdida naquele texto fuleiro que vc tenta defender usando Saramago; tu não é gênio. É só pretensioso mesmo.
.
“Ah, mas a Atwood tem um capítulo inteiro descrevendo os móveis da casa, e ela também não usa pontuação apropriada em alguns diálogos…”
.
Ela pode, meu caro. A gente não. Ela pode porque ela conseguiu usar um capítulo inteiro falando dos móveis de uma casa e fazer aquele capítulo ser essencial e prazeroso. Se seu texto não faz isso, não compara. Só… Não!
.
Entendamos (eu tou me incluindo nas pessoas que têm que entender isso, melhor a redundância que a má interpretação) que nem sempre o que as pessoas não gostaram de ler no nosso livro é porque se trata de algo “proibido” de se fazer. É só que depende de uma capacidade, habilidade, treino… ou um “algo” ue talvez não tenhamos (ainda).
.
Se um EDITORX ou umX REVISORX (profissionais da escrita, pessoas que vivem disso, e não aventureiros) nos der um retorno sobre nosso texto que nosso coração rejeita, tentemos, antes de ficar pistolaços, ler o nosso texto novamente pelos olhos do(a) profissional.
.
Entendamos:
Não somos Tolkien;
Não somos Atwood;
Nem Saramago;
Suassuna ou García Marquez
e
Nem
Bukowski.

Não significa que não possamos ter como exemplos os autores que admiramos.
.
Apenas precisamos reconhecer que escrever precisa de TREINO. Ninguém adquire nenhum tipo de habilidade (na vida real) sem treinar. Então, se quer escrever com a maestria de um Saramago, treine MUITO pra ficar igual a ele. Não faça de conta que é igual só porque você não quer aprender a usar travessão, hífen, vírgula e aspas.

.

(Obrigado pelas recentes críticas ao meu livro, feitas de forma privada e tão educada)

Categorias:Uncategorized
  1. Leonor Costa
    dezembro 12, 2019 às 12:08 pm

    penaquemeujornalehsohdedancapoisadorariapublicarseuartigomasachoquemeusleitoresnaovaoentender. Kkkkk. Parabéns pelo texto. Leonor.

    • Duda Vila Nova
      dezembro 12, 2019 às 12:38 pm

      Hahahahahaha.
      Vou voltar a escrever sobre dança.
      Mais especificamente sobre gestão de escolas.
      .
      Um projeto no qual venho trabalhando há uns anos, desde que comecei a trabalhar com ballet como “produto” principal, ao invés da dança de salão.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: